A física de origem cubana que construiu avião aos 14 anos e teve trabalho citado por Stephen Hawking
Sabrina González Pasterski teve sua primeira candidatura à Universidade de Harvard rejeitada e ficou na lista de espera do MIT, mas depois brilhou como aluna ...
Sabrina González Pasterski teve sua primeira candidatura à Universidade de Harvard rejeitada e ficou na lista de espera do MIT, mas depois brilhou como aluna de ambas as instituições Rich Polk/Getty Images "O que seria de mim sem minha mãe e o que seria dela sem sua história familiar? É difícil separar a identidade de alguém da própria realidade." Assim escreveu Sabrina González Pasterski em um e-mail enviado à BBC Mundo — serviço em espanhol da BBC — em 2020, para enfatizar que ela se reconhece como membro da comunidade latina. A física havia sido uma das dez jovens de origem latino-americana selecionadas pela equipe da BBC Mundo como figuras inspiradoras nos Estados Unidos. Seis anos depois, voltamos a conversar com a cientista, que nasceu em Chicago, em 1993. Atualmente, ela atua no prestigiado Instituto Perimeter de Física Teórica, no Canadá, onde lidera a Iniciativa de Holografia Celestial, que reúne um grupo de pesquisadores que tenta responder uma questão: seria possível uma teoria bidimensional descrever o Universo? A jovem, que teve sua primeira candidatura à Universidade de Harvard rejeitada e ficou na lista de espera do MIT, brilhou anos depois como aluna de ambas as instituições. Alguns dos trabalhos em que participou, junto a outros pesquisadores, foram citados por Stephen Hawking, e contribuíram para novas previsões sobre ondas gravitacionais. Três desejos Pasterski conta que sua mãe, Maria, nasceu em Cuba, e se mudou para os EUA ainda pequena, com os pais e a irmã. Quando era adolescente, entre os 12 e 14 anos, Sabrina construiu seu próprio avião. "Sempre gostei muito da ideia de ver como as coisas vão se juntando, como peças muito pequenas se juntam para formar algo maior", conta. Aos 16 anos, pilotou o avião que ela mesmo havia construído, o que chamou atenção da imprensa americana. Logo depois vieram as conquistas acadêmicas e reconhecimentos, com destaque em revistas como Time, Forbes e Scientific American. Sabrina Pasterski quando tinha quatro anos Arquivo Pessoal/Sabrina González Pasterski Alguns veículos de comunicação chegaram a chamá-la de "a nova Einstein", um rótulo que ela considera inadequado. Com a projeção vieram também convites para entrevistas e palestras em diferentes plataformas ao redor do mundo. Em uma delas, durante o Perspektywy Women in Tech Summit, em 2019, ela disse que tinha três desejos para as mulheres que atuam na área de tecnologia. "Não sucumbamos àqueles que querem nos fazer duvidar de nós mesmas", disse ela sobre o primeiro desejo. O segundo foi: "que resistamos à pressão daqueles que querem planejar nosso futuro por nós". E o terceiro foi sobre não ter medo de tirar um tempo de folga. Sem medo da mudança "Você ainda tem esses desejos?", pergunto a ela. "Sim, mantenho o que disse", ela responde, rindo. Sabrina construiu seu próprio avião quando era adolescente Arquivo Pessoal/Sabrina González Pasterski Pasterski construindo o avião na garagem de casa, quando tinha 13 anos Arquivo Pessoal/Sabrina González Pasterski "Quando a gente é mais jovem, é comum sentir a necessidade de se encaixar, de acompanhar o ritmo de colegas igualmente brilhantes, mas a verdade é que cada pessoa conduz suas pesquisas de uma maneira." "O que você deve tentar fazer é descobrir o que realmente te motiva." Quando ela fala sobre não ter medo de tirar um tempo para si, ela se refere à importância de fazer uma pausa para "descobrir o que realmente lhe dá prazer", sem medo de que isso leve a uma mudança de rumo. E isso se alinha não apenas com sua recomendação de "ter certeza de que você está fazendo o que quer fazer", mas também com a sua própria trajetória. Pasterski percebeu que sua paixão de infância pela aeronáutica não era o caminho que ela queria seguir. Foi quando descobriu a física. "Sabrina é uma das pesquisadoras que realizou trabalhos que, na ciência, chamamos de seminais — publicações que serviram como ponto de partida para uma nova área da Física Teórica", afirmou à BBC Mundo Francisco Rojas, professor da Universidade Adolfo Ibáñez, no Chile. Ele se refere à holografia celestial, área na qual também atua. Depois do trabalho em parceria com o físico Andrew Strominger, pioneiro dessa nova vertente da física, "Sabrina continuou sendo um dos principais nomes dessa área. É impressionante a quantidade de artigos que ela já publicou". 'Olhar para o céu noturno' Em um vídeo do Instituto Perimeter, Pasterski fala da holografia celestial. "Por celestial, nos referimos literalmente a olhar para o céu noturno: como o Universo físico é codificado como um holograma?", explica. Para entender a transcendência do seu trabalho, é preciso fazer uma breve viagem no tempo, relembrar o trabalho de físicos brilhantes e ter em mente que as duas teorias mais poderosas sobre o Universo — a relatividade geral e a mecânica quântica — não são compatíveis. Um dos físicos que tentou fazer com que elas dialogassem foi Stephen Hawking. Ao lado de Jacob Bekenstein, Hawking realizou, nos anos 1970, cálculos que foram revolucionários. "Esses cálculos deram o primeiro pontapé do que se chama hoje de holografia", destaca Rojas. Os dois cientistas calcularam a entropia e a temperatura de um buraco negro. Trabalhos em que Pasterski participou com outros pesquisadores foram citados por Stephen Hawking MENAHEM KAHANA/AFP via Getty Images A entropia é uma grandeza fundamental, presente basicamente em todos os sistemas físicos, e está relacionada à quantidade de informação contida neles. "Misturando as leis da relatividade geral — que descrevem o surgimento dos buracos negros — com as equações da mecânica quântica, eles chegaram a algo revolucionário", explica o especialista. Eles descobriram que a entropia do buraco negro não era proporcional ao seu volume, mas sim à sua área. "Como assim? Se o buraco negro tem coisas dentro, está cheio de estrelas, gases...como é possível que a entropia aumente com a área e não com o volume? Isso foi algo radical." O princípio holográfico Anos depois, seriam feitas algumas pesquisas que acabariam levando ao campo que hoje tem Pasterski entre suas principais referências. Leonard Susskind publicou "The world as a hologram" (O mundo como um holograma, na tradução livre para o português), em que uniu teorias de outros físicos de destaque, entre eles Bekenstein e Hawking. "E o que ele nos diz é: 'Olhem, o que acontece nos buracos negros talvez aconteça no Universo inteiro. Talvez a nossa realidade tridimensional seja algo que acontece nos limites do Universo, e tudo o que acontece aqui seja, na verdade, uma espécie de holograma do que está acontecendo lá fora'", explica o professor Rojas. Andrew Strominger, um dos pioneiros da holografia celestial, ganhou em 2017 o Prêmio Breakthrough por suas contribuições "transformadoras" para a teoria quântica de campos, a teoria das cordas e a gravidade quântica Kelly Sullivan/Getty Images E assim chegamos ao princípio holográfico. O que esse princípio propõe é que "toda a informação de um sistema físico — levando em conta todos os efeitos da mecânica quântica e da gravidade — não está realmente codificada no volume tridimensional em que ele existe, mas sim na borda bidimensional desse volume", explica Rojas. Se isso for verdade na escala do Universo, a implicação seria que "a nossa própria realidade poderia estar acontecendo na borda do nosso próprio Universo". A holografia celestial busca justamente generalizar o princípio holográfico e aplicá-lo a um Universo que não se expanda de forma acelerada. Citada por Stephen Hawking Na Iniciativa da Holografia Celestial do Instituto Perimeter, Pasterski lidera um grupo de pesquisadores que se dedicam a "unir nossa compreensão do espaço-tempo com a teoria quântica, codificando nosso universo como um holograma", diz o site do instituto. Anos antes, após se graduar no MIT como a melhor aluna do programa de Física, com uma média perfeita de 5, Pasterski fez seu doutorado em Harvard sob supervisão de Andrew Strominger, um dos maiores representantes da holografia celeste. Pasterski entrou no MIT aos 17 anos e, em 2021, integrou o Instituto Perimeter, um dos principais centros de pesquisa dedicados à física no mundo Gabriela Secara/Perimeter Institute Lá, ela ajudou a descobrir o chamado spin memory effect, ressalta o Instituto Perimeter, e ajudou a completar o chamado triângulo infravermelho — pesquisa que foi citada por Stephen Hawking. Esse estudo está relacionado às ondas gravitacionais e aos fenômenos do eletromagnetismo quântico. "Ao citá-lo, Hawking o destaca como um trabalho muito importante para o futuro da física", afirma Rojas. "É uma descoberta bastante relevante porque, hoje em dia, não é comum que um artigo científico em física preveja algo que possa ser medido experimentalmente em um prazo relativamente curto." A comparação com Einstein Pasterski já disse que não se sentia muito confortável em ser chamada de "a próxima Einstein". "Primeiro porque isso foi dito quando Hawking citou o trabalho que eu participei com o Andrew (Strominger). Eu estava apenas no segundo ano do meu doutorado", disse à BBC mundo. Pasterski durante entrevista com a BBC Mundo via chamada de vídeo BBC "Foi curioso porque meus pais, que não têm nada a ver com física, ao verem esse reconhecimento, achavam que eu estava indo muito bem. Mas eu sentia que não era bem assim." "O que mais me incomodava era pensar que, se eu realmente fosse uma grande cientista, minha vida seria diferente, e eu via isso pelas pessoas que ganhavam os prêmios Nobel. Isso sim era algo concreto e duradouro", declarou. "A outra questão é que esse tipo de rótulo não ajuda em nada se você está em uma área com milhares de pessoas. Não é justo." Ela afirma que a história do avião provavelmente fez com que ela chamasse mais atenção "do que outras pessoas que também eram brilhantes". "Durante um tempo, isso me incomodou porque eu sentia que não estava à altura [da comparação] e depois veio a pergunta: será que posso transformar isso em algo útil, positivo? Acho que a maturidade e o fato de ser professora me ensinaram que o legado de Einstein é algo que todo o nosso campo está tentando dar continuidade." "Até que ponto podemos ter um pouco mais de controle sobre essa narrativa? Não precisa ser sempre sobre estrelas que se destacam. Por exemplo, Edward Witten, qualquer um dos professores do Instituto de Estudos Avançados, em Princeton, meu orientador… há muitas estrelas, e nem todas escrevem livros ou tentam chamar atenção." Para Pasterski, o ponto central é como usar a visibilidade e o reconhecimento de uma forma que beneficie o campo da física como um todo e ajude a criar pontes com outras áreas, como o setor de tecnologia e a Inteligência Artificial, por exemplo. "Eu adoro a ideia de transformar esse tipo de atenção em algo positivo — de promover uma colaboração entre a academia e a indústria que nos ajude a resolver problemas e a fazer pesquisa de maneira mais eficiente, inovadora e interessante." Uma lacuna a ser preenchida Tentar unir a teoria da relatividade geral e a mecânica quântica se tornou um dos maiores desafios da física, que já mobilizou várias gerações de cientistas. Mas é assim que a pesquisa científica funciona, afirma Pasterski. O Instituto Perimeter, onde Sabrina Pasterski lidera um grupo de pesquisa Universal Images Group via Getty Images Quando você se dedica a estudar um problema pequeno na física, está se apoiando "nos ombros de gigantes" que ficaram presos em um ponto específico — e é justamente ali que você encontra uma lacuna importante a ser preenchida. É isso que ela, junto com sua equipe, está tentando fazer com suas pesquisas, que levam em conta a gravidade quântica, os estudos de Hawking, os experimentos realizados a partir deles, a teoria quântica de campos e a teoria das cordas, entre outros. "Existem exemplos específicos em que foram feitas tentativas de se estudar uma teoria da gravidade quântica procurando uma descrição que fosse equivalente, mas sem gravidade — e é nisso que eu trabalho", afirma. Com seu grupo de pesquisadores, ela procura criar um marco teórico geral que seja "mais realista" do ponto de vista da física. "É como se a própria física nos dissesse que existem descrições mais simples que podem nos levar a compreender muito mais coisas." E, para encontrar respostas, é fundamental contar com um "marco matematicamente consistente". "O objetivo é tentar encontrar um conjunto de leis altamente condensadas que depois expliquem todos esses outros fenômenos que estamos observando. Acho que essa é a missão que temos como grupo." Outra forma de ver o Universo É assim que Pasterski e sua equipe estão tentando ver o Universo de uma forma totalmente nova. "Eu gostaria que as pessoas soubessem que a descrição do Universo pode ser mais simples do que todas as coisas que surgem a partir dele — e que estamos tentando encontrá-la." "No fundo, acho que acreditamos que existe, em algum lugar, um conjunto de regras fundamentais das quais tudo emerge. Seria incrível entender quais são. Isso é fascinante." "Então, o Universo é um holograma?", pergunto. "Acredito que podemos descrevê-lo como um holograma, sim. E então surge a pergunta: é essa uma descrição útil?" E, se você, leitor, está se perguntando por que a palavra "celestial" aparece no nome desse ramo da física, o professor Rojas explica que é porque a teoria propõe que muitos dos fenômenos físicos que observamos — como as interações entre partículas subatômicas ou os vestígios deixados por colisões de buracos negros no espaço — podem ser compreendidos como uma projeção em uma esfera… Tal como as estrelas projetam seu brilho no céu noturno. Físico brasileiro é citado em Nobel de Física e celebra reconhecimento da ciência nacional