De serventes a guias: gêmeos descobriram quase 400 espécies de aves em MG
Afonso Carlos dos Santos e Luiz Alberto dos Santos Arquivo pessoal O gosto pela natureza surgiu na vida dos irmãos gêmeos Afonso Carlos dos Santos e Luiz Albe...
Afonso Carlos dos Santos e Luiz Alberto dos Santos Arquivo pessoal O gosto pela natureza surgiu na vida dos irmãos gêmeos Afonso Carlos dos Santos e Luiz Alberto dos Santos de forma natural, a partir do incentivo e convívio com familiares que tinham apreço por "coisas do mato". Hoje eles são referências quando o assunto é natureza no município mineiro onde moram. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp Ainda meninos, eles demonstravam curiosidade pelas espécies. Quando não estavam explorando um cantinho do Cerrado no município de Pompéu (MG), certamente estavam assistindo a algum programa que envolvesse a vida selvagem, como os documentários narrados por David Attenborough. Neste ano, os gêmeos de 27 anos celebram 15 anos do início da observação de aves na cidade, além de 10 anos de atuação como guias locais. “O que mudou de lá pra cá, foi que era apenas um hobby pra gente, e virou um estilo de vida e uma profissão”, comenta Afonso ao lembrar de como tudo começou. Durante a adolescência, os irmãos trabalharam como serventes de pedreiro, venderam latinhas e papelão para arrecadar dinheiro, conseguindo comprar o primeiro equipamento fotográfico após quatro anos de esforço. Maxalalagá é considerada uma das aves que fortalecem a marca dos gêmeos mineiros Luiz Alberto VIU ISSO? Terra da Gente promove fórum gratuito de educação ambiental; veja programação Ciência encontra mais mamíferos nos trópicos; muitos podem sumir antes de serem conhecidos Como cientistas ‘caçam’ vírus pelo mundo para antecipar pandemias Turismo e economia A trajetória da dupla é admirada no birdwatching do país e tem se mostrado cada vez mais relevante para a economia do município. A atividade coloca a cidade em evidência em âmbito internacional, o que reforça o poder do turismo da vida selvagem. “O trabalho com as aves está consolidando Pompéu como um destino nacional e internacional de aves. No ano passado cerca de R$ 152 mil foram arrecadados para o município, e esse valor engloba gastos dos visitantes com comércio, restaurantes, setor hoteleiro e postos de combustível. É um dado importante, pois representa 8% a mais do que ano de 2024”, pontua Luiz. Mineirinho, ave ameaçada, pode ser encontrada em Pompéu Afonso Carlos Em 2025, mais de cem observadores de aves passaram por Pompéu para contemplar as espécies. Desse total, 37 eram estrangeiros vindos de países como Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Inglaterra, Irlanda, Suécia e Panamá. Já na retrospectiva sobre os visitantes nacionais, os gêmeos contabilizaram 96 brasileiros de estados como Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e a própria Minas Gerais. Descobertas e espécies raras Turu-turu foi uma das aves descoberta por irmão e que atraiu turistas para região Luiz Alberto Além do movimento de pessoas visitando a cidade, outro número que segue crescendo é a quantidade de espécies descobertas. O desejo dos irmãos é chegar à marca de 400 espécies registradas no município. “Quando descobrimos o WikiAves em 2015 havia 81 espécies de aves documentadas na plataforma para a cidade de Pompéu, hoje os registros atingem a marca de 392 aves catalogadas, 100% das espécies que foram registradas posteriormente a essa época, foram encontradas por nós ou por pessoas que estávamos guiando”, explica Luiz. Veja o que está em alta no g1: Vídeos em alta no g1 Apesar da busca incansável pelos bichos, cada espécie encontrada marca de forma única a história da observação de aves que eles estão construindo nas terras mineiras. Muitos dos achados impressionam por se tratarem principalmente de bichos ariscos e até ameaçados do Cerrado, como é o caso da codorna-mineira (Nothura minor). “Sem sombra de dúvidas, as espécies mais emblemáticas que encontramos, foram a sanã-de-cara-ruiva (Laterallus xenopterus) e a codorna-mineira (Nothura minor) por serem espécies extremamente ameaçadas, que não tem a devida atenção em sua conservação e podem acabar extintas nos próximos anos, pois habitam ambientes campestres bastante sensíveis no Cerrado. E juntas da maxalalagá (Micropygia schomburgkii), turu-turu (Neocrex erythrops) e mineirinho (Charitospiza eucosma) foram as espécies que mais atraíram observadores do mundo todo para Pompéu”, diz Afonso. A maxalalagá, uma ave de chão parente das sanãs que não ultrapassa os 15 centímetros e é considerada um "fantasminha" do Cerrado, é uma das espécies que fortalece a marca dos “Irmãos Pompéu”. Codorna-mineira, ave rara e ameaçada de extinção foi encontrada em Pompéu (MG) Afonso Carlos Eles descobriram a espécie na região em meados de 2017 devido à inconfundível vocalização. Em pouco tempo, eles conseguiram atrair a espécie para perto com segurança e respeito, tornando o encontro com a ave praticamente certeiro e um grande atrativo para os observadores. Em anos posteriores, chegaram a contabilizar mais de 12 casais em áreas naturais da cidade, o que também é considerado um grande feito. Recentemente, as novas espécies que entraram na lista de registros do período foram o mocho-dos-banhados, periquito-da-caatinga, bacurau-norte-americano e tiê-sangue. Apelo pela conservação A paixão pelas aves é o que move a vida dos irmãos. Por meio delas, eles reforçam o desejo de proteção dos ambientes naturais, principalmente do Cerrado que, em Pompéu, segue sendo devastado. “A nossa maior preocupação com o Cerrado de Pompéu é que as pessoas não se conscientizem a tempo de salvar o que ainda restou, pois nesses últimos anos, vivenciamos o desmatamento de mais de 60% das áreas onde visitávamos. A criação de Unidades de Conservação no município é de extrema importância para manter o pouco que ainda resta de Cerrado, não só para a fauna e a flora, mas também para nós seres humanos, já que muitas dessas áreas asseguram inúmeras nascentes e corpos d'água”, reforça Afonso. Apesar do atual cenário de destruição severa entristecer, os irmãos têm esperança de que, por meio do encanto e do viés econômico, seja possível mudar a situação. “Nosso desejo é que nos próximos anos a observação de aves cresça de forma sustentável e que possamos mostrar cada vez mais que árvores e capins do Cerrado em pé, valem mais que árvore no chão, torcemos muito para que ocorra a criação o quanto antes de uma Unidade de Conservação no município. Nós demonstramos na prática que o Cerrado vivo gera renda, mas precisamos de apoio e participação dos órgãos competentes e da população, senão tudo o que fazemos será em vão”, enfatiza Luiz. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente