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Gilsons refinam o som, entre a leveza e o lirismo, no segundo álbum de estúdio

O grupo Gilsons alinha dez canções no álbum 'Eu vejo luz em maior proporção do que eu vejo a escuridão' Marina Zabenzi / Divulgação ♫ CRÍTICA DE ÁLB...

Gilsons refinam o som, entre a leveza e o lirismo, no segundo álbum de estúdio
Gilsons refinam o som, entre a leveza e o lirismo, no segundo álbum de estúdio (Foto: Reprodução)

O grupo Gilsons alinha dez canções no álbum 'Eu vejo luz em maior proporção do que eu vejo a escuridão' Marina Zabenzi / Divulgação ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Eu vejo luz em maior proporção do que eu vejo a escuridão Artista: Gilsons Cotação: ★ ★ ★ ★ ★ ♬ “A gente quis dar um passo à frente sem perder a nossa gênese”, contextualiza José Gil, produtor musical do segundo álbum de estúdio do trio Gilsons, “Eu vejo luz em maior proporção do que eu vejo a escuridão”, posto no mundo às 15h de ontem, 3 de março. A audição do álbum mostra que a fala de José não soa como mera retórica ou marketing. De fato, é nítida a evolução do grupo formado no Rio de Janeiro (RJ) em 2018 por Francisco Gil, João Gil e José Gil. A influência natural do som de Gilberto Gil – patriarca da família de origem baiana – é percebida já no violão que insinua o toque de ijexá que conduz “Visão” (Francisco Gil), música que abre o disco, embutindo na letra o verso que intitula o álbum “Eu vejo luz em maior proporção do que eu vejo a escuridão”. É curioso como os Gilsons se conectam bem com o público jovem sem abrir mão das referências da MPB de Gilberto Gil, também perceptíveis em “Semeia” (Gus Levy) e “Zumbido” (João Gil), faixas valorizadas pelos arranjos de sopros orquestrados por Diogo Gomes e Thiago Queiroz, respectivamente. O trio Gilsons faz feats com Arnaldo Antunes, Caetano Veloso e Julia Mestre no álbum gravado com produção musical de José Gil Marina Zabenzi / Divulgação Talvez nem seja exagero apontar uma maturidade precoce dos Gilsons, potencializada pelas dissonâncias que pautaram a vida da família Gil entre este segundo álbum de estúdio e o antecessor “Pra gente acordar” (2022). Entre um e outro disco, o clã enfrentou a doença e a morte de Preta Gil (1974 – 2025) – mãe de Fran, tia de João e irmã de José – em julho do ano passado. O repertório do álbum inevitavelmente reflete o impacto dessa perda, mas nas letras do que na sonoridade. Tem uma baianidade no balanço de “Desejo” (Francisco Gil, João Gil e José Gil), por exemplo, mas há também uma maior densidade nas letras que contrasta com a frivolidade banal e por vezes vulgar do pop consumido em larga escala pelo público jovem no mainstream musical do Brasil. As duas faixas adiantadas pelo trio em single editado em 19 de janeiro, “Bem me quer” (Narcizinho Santos e Jocimar Lopes Cunha) e “Minha flor” (João Gil e Arnaldo Antunes), já indicaram que os Gilsons celebram o passado (ainda curto, mas já glorioso diante da grande repercussão do álbum de estreia e da turnê “Pra gente acordar”) enquanto apontam o futuro no álbum “Eu vejo luz em maior proporção do que eu vejo a escuridão”. “Bem me quer” celebra o passado do grupo com mix de tambores (percutidos por Kainã do Jeje) e beats (gerados pelas programações pilotadas por José Gil). Canção de tom lírico, “Minha flor” desabrocha rumo ao futuro, quase em feitio de oração, com a letra escrita por Arnaldo Antunes em sincronia com a melodia de João. Ao mesmo tempo, a união das vozes dos Gilsons com as de Caetano Veloso, Moreno Veloso e Tom Veloso (este também no violão) carrega tradições por reunir as famílias Gil e Veloso, afinadas na música e na vida. João Gil (à esquerda), José Gil (ao centro) e Francisco Gil mostram progresso no segundo álbum de estúdio do trio Gilsons Marina Zabenzi / Divulgação O lirismo de “Minha flor” se afina com o tom poético de “Vai chover”, bonita parceria de João Gil com o recorrente Arnaldo Antunes, que faz feat com os Gilsons na faixa. Já “Beijo na boca” (Fran Gil) injeta leveza e juventude condizentes com a imagem do trio, ecoando a efervescência do som de Carlinhos Brown. A adesão de Iuri Rio Branco na produção da faixa – dividida com José Gil – turbina a porção de eletrônica. A presença de Julia Mestre como coautora e intérprete convidada de “Nó na cuca” – outra música mais leve, assinada por José Gil e Zé Ibarra com Julia – também reforça o elo do álbum com a história dos Gilsons, até porque Julia é habitual colaboradora do trio. No arremate do álbum, os tambores introduzem “Se a vida pede”, parceria de José Gil com Sona Jobarteh – cantora, compositora e multi-instrumentista inglesa de ascendência gambiana – que fecha lindamente “Eu vejo luz em maior proporção do que eu vejo a escuridão” como breve manifesto de aceitação do curso da vida em versos como “Se a vida pede, eu vou tocando / Se o mundo gira, eu vou dançando / ... / Na corda do tempo, deslizo sem pressa”. A vida pediu resiliência a Francisco Gil (baixo, guitarra, violão e voz), João Gil (baixo, guitarra, guitarra baiana, violão e voz) e José Gil (baixo, percussão, programações, violão e voz). O trio encarou o luto e resistiu. A bela resposta ao tempo é este coeso álbum em que os Gilsons, em nítido progresso, refinam o som entre a leveza e o lirismo. Capa do álbum 'Eu vejo luz em maior proporção do que eu vejo a escuridão', do grupo Gilsons Divulgação

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