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Independência em xeque? Como o Fed e outros 4 bancos centrais enfrentam a pressão política

Brasil se une a bancos centrais globais em defesa do presidente do Fed após ameaça de Trump A independência dos bancos centrais — ou seja, a capacidade de ...

Independência em xeque? Como o Fed e outros 4 bancos centrais enfrentam a pressão política
Independência em xeque? Como o Fed e outros 4 bancos centrais enfrentam a pressão política (Foto: Reprodução)

Brasil se une a bancos centrais globais em defesa do presidente do Fed após ameaça de Trump A independência dos bancos centrais — ou seja, a capacidade de definir os juros sem interferência política — é considerada essencial para o bem-estar econômico de um país. Esse é um dos motivos pelos quais a tentativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de demitir a diretora do Federal Reserve (Fed), Lisa Cook, tem chamado tanta atenção. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça Em países onde os bancos centrais se alinham às preferências de políticos, os resultados costumam ser piores, com inflação mais elevada e crescimento econômico mais lento, como indicam décadas de estudos acadêmicos. Por outro lado, a experiência histórica mostra que bancos centrais independentes têm mais sucesso na manutenção da estabilidade de preços. Há diversos exemplos de bancos centrais submetidos à pressão política. Veja abaixo cinco casos notáveis. 🗒️Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 Estados Unidos Foto de arquivo: O presidente dos EUA, Donald Trump, observa Jerome Powell, seu indicado para presidir o Federal Reserve (Fed), durante discurso na Casa Branca, em Washington, EUA, em 2 de novembro de 2017. REUTERS/Carlos Barria/Foto de arquivo Embora nenhum dirigente do Fed tenha sido demitido por não atender às exigências de um presidente americano sobre juros, isso não significa que líderes dos EUA não tenham tentado — e às vezes conseguido — exercer influência de outras formas. 🔎 No caso de Cook, apesar de os votos dela nas decisões de juros estarem no pano de fundo da ofensiva de Trump, a iniciativa se apoia em acusações não comprovadas de fraude hipotecária. O ex-presidente Richard Nixon pressionou o então presidente do Fed, Arthur Burns, a manter os custos de empréstimos baixos, apesar da rápida alta dos preços, para ajudá-lo a vencer a reeleição em 1972. O episódio é amplamente visto como o ponto de partida de um surto inflacionário que só foi contido pelas ações politicamente impopulares de um sucessor no comando do Fed, Paul Volcker, que elevou os juros para dois dígitos. A estratégia levou o país à recessão, mas controlou a inflação por quase quatro décadas, em grande parte por restabelecer a credibilidade do banco central americano como uma instituição independente. Nixon, porém, não foi o primeiro presidente a tentar impor sua vontade ao Fed. Em 1965, Lyndon Johnson convocou o então presidente da instituição, William McChesney Martin Jr., para seu rancho no Texas e exigiu o fim da alta dos juros — chegando a empurrá-lo e repreendê-lo fisicamente. Martin recusou, temendo que o estímulo fiscal de Johnson alimentasse a inflação. Anos depois, porém, afrouxou a política monetária em troca da promessa do presidente de elevar impostos — acordo que mais tarde avaliou ter contribuído para a aceleração da inflação. Turquia Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, durante discurso em Istambul Murad Sezer/REUTERS O presidente turco, Tayyip Erdogan — que se autodeclara um “inimigo dos juros” — demitiu quatro dirigentes do banco central entre 2019 e 2023 por elevarem os custos de empréstimos ou resistirem aos cortes que ele exigia e que, segundo sua avaliação, reduziriam a inflação. O efeito foi o oposto: a inflação disparou, a lira entrou em colapso e famílias passaram a ter dificuldade para arcar com itens básicos, como aluguel e alimentação. Em 2023, Erdogan mudou de rumo e nomeou a executiva financeira americana Hafize Gaye Erkan, que elevou rapidamente a taxa básica de juros de 8,5% para 45%. Seu sucessor e atual presidente do banco central, Fatih Karahan, apertou ainda mais a política monetária antes de iniciar, recentemente, um alívio. A inflação recuou do pico de 85% no fim de 2022, mas segue em dois dígitos. Argentina Casa Rosada, na Argentina Rafael Leal/g1 A nacionalização do banco central pelo ex-presidente argentino Juan Perón, em 1946, colocou o país sul-americano em uma trajetória de crises recorrentes nas décadas seguintes. Nesse período, o governo passou a imprimir dinheiro para financiar gastos, o que provocou sucessivas ondas de inflação elevada e hiperinflação. Dos 14 presidentes do BC desde 2000, vários foram afastados por divergências com o governo, entre eles Martín Redrado, demitido em 2010 por se recusar a executar o plano da então presidente Cristina Fernández de Kirchner de usar bilhões de dólares em reservas cambiais para pagar dívidas. Venezuela Nicolás Maduro discursa durante manifestação na Venezuela Stringer/AFP A Constituição do país garante certo grau de independência ao banco central e proíbe o financiamento direto de déficits do governo. Ainda assim, o líder venezuelano Nicolás Maduro — que será julgado em Nova York por acusações de tráfico de drogas, após ter sido preso por forças especiais dos EUA — aprovou leis que colocaram a instituição sob controle total do Executivo, com a direção indicada exclusivamente pelo presidente. Após a queda dos preços globais do petróleo em 2014, o banco central passou a emitir moeda para financiar déficits elevados, alimentando uma hiperinflação que atingiu o pico em 2018, estimada por alguns cálculos em mais de 1.000.000%. Zimbábue O ex-presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, em foto de 3 de outubro de 2017 AP Photo/Themba Hadebe O BC do Zimbábue também emitiu moeda para financiar gastos do governo do então presidente Robert Mugabe — incluindo, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), despesas eleitorais, transferências para entidades controladas pelo Estado e a compra de equipamentos subsidiados para agricultores. A hiperinflação atingiu níveis extremos e, em janeiro de 2009, levou o então presidente do banco central, Gideon Gono, a emitir uma cédula de 100 trilhões de dólares.

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