Qual é a idade mais triste da vida? Estudo aponta número semelhante em mais de 140 países
O ponto mais baixo na curva da satisfação ocorre globalmente por volta dos 47 a 48 anos. Freepik/Arquivo Qual é a idade mais feliz e a mais triste da vida? ...
O ponto mais baixo na curva da satisfação ocorre globalmente por volta dos 47 a 48 anos. Freepik/Arquivo Qual é a idade mais feliz e a mais triste da vida? Ela depende da experiência individual, mas um estudo internacional indica que o ponto mais baixo do bem-estar ocorre em idade semelhante em diferentes países. Em 2020, o economista David Blanchflower, professor da faculdade Dartmouth , nos Estados Unidos, realizou um estudo que considerou dados de mais de 140 países, entre desenvolvidos e em desenvolvimento, e utilizou diversos fatores para mensurar o ponto mais baixo de bem-estar e alegria. O ponto mais baixo na curva da satisfação ocorre globalmente por volta dos 47 a 48 anos. Esse período é identificado como um momento de maior vulnerabilidade, quando as pessoas enfrentam o que o autor chama de um “caldo tóxico” de desafios: Ajuste de expectativas: a meia-idade é frequentemente o momento em que as pessoas lidam com aspirações não alcançadas. Pressões sociais e econômicas: é o período em que choques como desemprego, problemas de saúde ou divórcio têm impacto mais severo no bem-estar. Vulnerabilidade psicológica: é a fase em que aumentam as taxas de depressão e instabilidade emocional. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Do ponto de vista biológico, a meia-idade está associada ao aumento crônico do cortisol, o que pode causar alterações de humor, problemas de sono, fadiga e redução do prazer. Mudanças hormonais desse período também intensificam esses efeitos, como a queda da testosterona nos homens e as flutuações hormonais da perimenopausa e da menopausa nas mulheres, que afetam o bem-estar emocional. “A chamada crise da meia-idade não deve ser vista como uma falha pessoal, mas como um período previsível de maior vulnerabilidade, resultado da convergência de fatores psicológicos, sociais e biológicos. Nessa fase, o humor e a sensação de satisfação tornam-se mais sensíveis”, diz Picarelli. Essa crise da meia-idade deixou de ser um mito, mas a boa notícia é que esse período não dura para sempre. Após o ponto mínimo, o bem-estar começa a subir de forma consistente e gradual em direção aos 70 anos ou mais. Essa recuperação acontece em quase todos os países analisados, independentemente do nível de renda. Na velhice, muitas vezes o nível de satisfação com a vida retorna a patamares semelhantes aos da juventude. Segundo Helder, a psicologia sugere que esse aumento progressivo do bem-estar na maturidade esteja relacionado, em grande parte, ao desenvolvimento da maturidade emocional e à reorganização das expectativas de vida. Para muitos indivíduos, esse período coincide com a sensação de ter alcançado, ao menos parcialmente, seus objetivos. A surpresa discutida no estudo é que, mesmo em contextos culturais muito diferentes, o padrão se repete: as pessoas tendem a se sentir melhor na juventude, passam por um período de menor bem-estar até o fim dos 50 anos e voltam a valorizar mais a sensação de bem-estar ao se aproximarem da velhice. Curva em U Para Helder Picarelli, médico neurocirurgião e neurologista do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), a curva da felicidade em formato de "U" é um fenômeno bem documentado na literatura científica, com diversos estudos robustos que demonstram que a felicidade, ou o bem-estar subjetivo, ao longo da vida tende a seguir esse padrão. “Os resultados foram claros. Mesmo após o controle de múltiplas variáveis, como escolaridade, renda, situação no mercado de trabalho e estado civil, a idade permaneceu como um fator independente e significativo”, afirma o especialista. Como ficou a curva da felicidade durante a pandemia? O estudo de Blanchflower abordou apenas os momentos iniciais da pandemia de Covid-19, que teve impacto significativo na saúde mental de pessoas em todo o mundo. O médico psiquiatra Saulo Ciasca explica que a crise da meia-idade já existia, mas a pandemia aprofundou esse “vale”, ampliando o esgotamento. “Nesse período da vida, as pessoas acumulam responsabilidades com filhos, pais idosos, carreira e finanças. Com a Covid-19, somaram-se o medo do desemprego, o luto, o isolamento e a sobrecarga emocional”, pontua. Embora a curva em U mostre que a felicidade geralmente aumenta após os 50 anos, o autor do estudo ressalta que esse movimento pode ser ameaçado por grandes crises econômicas ou de saúde pública, que atingem com mais força quem já apresenta baixa resiliência emocional. O Brasil e a curva da felicidade A pesquisa cita o Brasil como um exemplo para confirmar que a curva da felicidade em forma de U não é um fenômeno exclusivo de países desenvolvidos, manifestando-se também em nações em desenvolvimento. “Essa interpretação pode não se aplicar de forma homogênea a todas as culturas. Em sociedades com organização social distinta ou comunidades mais isoladas, outros fatores podem ser mais determinantes do bem-estar, independentemente da idade cronológica”, afirma Picarelli. A conexão entre jovens e idosos, chamada de relação intergeracional, é fundamental para a sociedade. Freepik A felicidade é maior na juventude ou na velhice? A felicidade é um sentimento subjetivo e pode variar ao longo da vida. O que gera prazer em um momento pode não ser o mesmo anos depois. Na juventude, a felicidade costuma estar associada a novidades e primeiras experiências. Na velhice, o amadurecimento tende a reduzir o estresse relacionado a certas preocupações. “Esse padrão de diferença entre os tipos de felicidade é compatível com teorias psicológicas, como a seletividade socioemocional, segundo a qual, à medida que a percepção do tempo de vida se torna mais limitada, as pessoas passam a priorizar experiências emocionalmente mais significativas”, ressalta Picarelli. O psiquiatra Saulo explica que, com o tempo, diminuem a comparação social e a pressão por decisões, aumentando a aceitação e a sensação de paz. Em termos populacionais, a curva do bem-estar costuma subir levemente na velhice, embora as experiências individuais variem bastante.
