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'Satanás foi ao Éden': como uma ilha planejada para ser paraíso foi engolida por mistérios e mortes sem explicação

Ilha que era para ser paraíso virou ‘inferno’ na década de 1930 O cenário paradisíaco das ilhas Galápagos, na costa do Equador, virou palco de um verda...

'Satanás foi ao Éden': como uma ilha planejada para ser paraíso foi engolida por mistérios e mortes sem explicação
'Satanás foi ao Éden': como uma ilha planejada para ser paraíso foi engolida por mistérios e mortes sem explicação (Foto: Reprodução)

Ilha que era para ser paraíso virou ‘inferno’ na década de 1930 O cenário paradisíaco das ilhas Galápagos, na costa do Equador, virou palco de um verdadeiro inferno na década de 1930. À época, um médico alemão queria transformar uma das ilhas do arquipélago em uma sociedade utópica. Mas a história terminou em violência, mortes sem explicação e desaparecimentos misteriosos. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Tudo começou com um amor proibido. O médico Friedrich Ritter havia se apaixonado por uma de suas pacientes, Dore Strauch. Os dois eram casados, mas tomaram a decisão de fugir juntos da Alemanha. O contexto era de crise global, com os alemães ainda se recuperando da Primeira Guerra Mundial. A ideia do casal era ir para Floreana para aplicar ideias do filósofo Friedrich Nietzsche e criar uma forma alternativa de vida. Segundo a escritora norte-americana Abbott Kahler, que pesquisou a história e escreveu o livro “Eden Undone: A True Story of Sex, Murder, and Utopia at the Dawn of World War II”, Ritter queria encarnar a visão de Nietzsche sobre o “Übermensch”, ou “super-homem”. O super-homem de Nietzsche é alguém capaz de transcender costumes, comportamentos e padrões de pensamento convencionais para criar um sistema superior de valores. Segundo Kahler, ao planejar deixar a Alemanha, Ritter buscava escapar da civilização em um lugar que estivesse à altura de seu sombrio sonho nietzschiano. Já Dore queria se livrar do marido, que era mais velho e conservador. “Floreana, uma pequena ilha no sul de Galápagos, pareceu a escolha perfeita. Diferentemente de muitas das ilhas do arquipélago, ela tinha ao menos uma fonte de água doce. Ritter estava ansioso para tentar cultivar uma horta e viver da terra”, afirma. “Tão importante quanto isso, a ilha não era habitada por humanos. Vários grupos haviam tentado se estabelecer ali antes dele, mas todos fracassaram.” O casal deixou a Alemanha em 1929 rumo à América do Sul. Segundo Kahler, antes da viagem, Ritter e Dore tiraram os próprios dentes para evitar problemas dentários na nova casa. No lugar, passaram a usar uma dentadura de aço. Friedrich Ritter e Dore Strauch, em Floreana, na década de 1930 Allan Hancock Foundation Collection/USC Library Ao chegarem a Floreana, o casal começou a trabalhar na construção do próprio espaço. Logo, a história chegou à imprensa e se espalhou ao redor do mundo, com Ritter e Dore sendo apelidados de “Adão e Eva”. Na época, o contato com o mundo exterior ocorria por meio de navios que faziam escala na ilha e levavam cartas do casal. A curiosidade despertada pelo caso, no entanto, acabou minando o projeto utópico, abrindo caminho para a chegada de novos moradores, além de conflitos e disputas de poder. Nos anos seguintes, a sequência de eventos terminaria nas mortes do médico alemão e de outro homem, além dos desaparecimentos de uma “baronesa” e de um de seus amantes. A ilha de Floreana, em Galápagos Thalita Ferraz/g1 Chegada de vizinhos e ‘trisal’ Em 1932, outro casal alemão fascinado pela história de Floreana resolveu seguir os passos de Ritter e Dore. Heinz e Margret Wittmer embarcaram na aventura principalmente por preocupação com a família. Segundo Kahler, o filho adolescente de Heinz, de um casamento anterior, tinha a saúde frágil desde o nascimento. Ele acreditava que o clima tropical faria bem ao garoto. Já Margret sonhava em ter filhos e, quando chegou a Floreana, estava grávida de quatro meses. Relatos das famílias apontam que a chegada do novo casal trouxe embates diretos na ilha. A escritora norte-americana afirma que houve ressentimento desde o começo da convivência. “Dore considerava Margret uma tola por escolher ter um bebê em uma ilha remota, e Margret achava Dore pretensiosa por citar Nietzsche em uma ilha remota”, conta. A família Wittmer em Floreana, na década de 1930 Allan Hancock Foundation Collection/USC Library Mas os problemas começaram de fato quando a autoproclamada baronesa austríaca Eloise von Wagner Bosquet — também conhecida como “Calcinhas Loucas” — decidiu se mudar para a ilha com dois amantes. A chegada do trisal abalou de vez a convivência em Floreana. Kahler explica que a baronesa era movida por fama e riqueza. Assim que chegou à ilha, Eloise anunciou a intenção de transformar Floreana “na próxima Miami” e atrair milionários americanos com a construção de um hotel de luxo. A ideia incomodou os moradores, por ser oposta ao ideal utópico do médico Friedrich Ritter. Além disso, segundo a escritora, a baronesa passou a provocar os habitantes da ilha: colocou seus dois amantes um contra o outro, encenando brigas físicas; roubou objetos das outras famílias, inclusive o leite do bebê recém-nascido dos Wittmer; fez propostas sexuais aos companheiros de Dore e Margret. Ainda de acordo com a BBC, a baronesa também abusou de recursos como água e alimentos administrados pelas famílias e interferia nas cartas enviadas à imprensa alemã, para aparecer sempre no centro da história. “Ela espalhava boatos sobre todos e convencia turistas a não visitar as outras casas da ilha. Houve até um episódio quase fatal envolvendo um visitante que não correspondeu às investidas da baronesa”, afirma Kahler. “Mesmo Ritter e Heinz, que não se suportavam, deixaram as diferenças de lado e se uniram para tentar deter a baronesa. Claro que não foram tão bem-sucedidos quanto esperavam.” O trisal da baronesa Eloise Wehrborn CAP/NFS/IMAGO via DW Mortes e mistérios Os mistérios em Floreana começaram em 27 de março de 1934, quando a baronesa e Robert Philippson, um de seus amantes, desapareceram. Kahler explica que até hoje não se sabe o que aconteceu com a baronesa e o amante. Relatos registrados em livros escritos por Dore e Margret sobre a vida na ilha divergem. Margret afirmou que a baronesa deixou Floreana em um navio com destino ao Taiti. No entanto, segundo a BBC, investigações indicam que não há registros de embarcações que pudessem ter feito a viagem naquele período. Dore disse ter ouvido um grito na noite anterior ao desaparecimento da baronesa. Ela também afirmou não ter visto nenhum navio passar pela ilha. “Em algum momento, todos os personagens do livro mentem — ou ao menos omitem verdades. Foi muito divertido tentar descobrir quem estava mentindo, quando e por quê”, diz a escritora. Após o sumiço da baronesa, o segundo amante dela, Rudolf Lorenz, deixou Floreana com destino à ilha de São Cristóvão. Meses depois, o corpo dele foi encontrado mumificado em Marchena, também em Galápagos. A ilha fica no sentido oposto àquele para onde Lorenz disse que seguiria. Ainda em 1934, Friedrich Ritter adoeceu repentinamente. Figura central no início da história de Floreana, o médico teria comido um frango contaminado. Um artigo do jornal The New York Times relata que Ritter teve “indisposição alimentar e morreu em poucos dias”. Em 2024, uma reportagem da agência alemã Deutsche Welle apontou que Ritter era supostamente vegetariano e que havia indícios de abuso contra Dore, que foi quem serviu o frango que teria provocado a morte do médico. Dore Strauch e Friedrich Ritter em Floreana, em 1932 The Galapagos Affair/Golden Globes/Reprodução Após a morte de Ritter, Dore voltou para a Alemanha e lançou o livro “Satanás Veio ao Éden”. Uma reportagem do New York Times, publicada em 1936, trouxe trechos da obra. No texto, ela afirma que notou que todo traço de ternura de Friedrich em relação a ela desapareceu no momento em que eles saíram de casa. No entanto, Dore diz não ter se arrependido da experiência. “Acredito que essas ilhas são, de fato, um daqueles lugares na Terra onde os seres humanos não são tolerados”, afirmou, segundo o NYT. Heinz e Margret Wittmer permaneceram na ilha e abriram um hotel da família. O estabelecimento funciona até hoje. Margret também lançou o livro “Agência de Correios de Floreana: uma vida extraordinária de uma mulher no fim do mundo”. “No fim, tudo se resume a uma verdade simples: cada pessoa naquela ilha tinha uma definição diferente de ‘utopia’. E, por causa das falhas humanas, qualquer tipo de utopia é impossível”, afirma Kahler. VÍDEOS: mais assistidos do g1

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